terça-feira, 12 de julho de 2016

À caminho do éden

     
                          

                                           À caminho do éden


O velhinho sentou-se na cadeira, miúdo e só, frente à funcionária pública, de óculos de grau, estantes entupidas de pastas guardadas em ordem alfabética, cheiro de fungos, de mofo, trouxe o papel que faltava..., disse ela, Ele ajeitou-se na cadeira, olhos lacrimosos, as mãos, o pescoço, enfim, toda a pele marcada pelo tempo, ia mostrar os papéis quando ela disse,um instante senhor!, Pegou o telefone. 

Aquele ambiente já fazia parte da vida dele. Já iam lá mais de seis meses carregando papel, documentos, fotos, xerox, elásticos, carnês, nada consta, atestado de vida e até de morte.

A mulher ri ao telefone, galhofa com a outra pessoa através do fio, despede-se e A mulher calejada pelo trato com o público, ficou séria, deu um riso amarelo, desculpou-se com o velhinho, pegou a papelada, deu as costas, ele aproveitou e enxugou o nariz e os olhos, deram para minar água, a mulher retirou uma pasta vermelha, bateu a poeira, olhos de cão perdigueiro, passou a  papelada um a um,  dedo na língua dedo no papel, e foi paginando lentamente. Espetou o último papel que o velhinho trouxe na pasta, balançou a cabeça e andou para o birô, talvez até com uma alegria reprimida, Sr Marcolino de Andrade Silva, é o senhor, não!,o velhinho abanou a cabeça esperançoso,  riso sem dente, formigamento no peito talvez emoção, ou a tosse que adquirira no ultimo inverno, aquele frio horrendo.

 A mulher de óculos continuou, aqui consta que o senhor foi pedreiro de acabamento não?, e o velhinho consentiu com um aceno, fui sim senhora e dos bons, agora o intestino roncou, e ele talvez ficou um pouco rubro de vergonha, se a mulher ouve, ele era extremamente tímido,saiu de casa por volta das três da manhã, pegou o metrô, talvez lotado, hoje em dia  ninguém dá acento a velho, e veio uns dez quilômetros balançando em pé, segurando no estribo para não cair, não tomou o café preto de costume, comprou na birosca perto de casa biscoito polvilho, enganar as tripas, aquilo  na boca derrete num segundo, o restante da viagem até ali veio capengando a pé pelas calçadas, verdadeiros obstáculos, para velhos e deficientes.

Senhor Marcolino, sinto muito, mas ainda falta esse documento, a mulher de óculos anotou num pequeno papel e entregou ao velhinho banguela, favor trazer a Xerox reconhecer firma, e tudo se resolverá creio eu,  O velhinho esticou o braço trêmulo, quase sem acreditar, a mulher retirou a mão rapidamente para que não houvesse toque, nunca se sabe esses velhos não costumam tomar banho, e tem cheiro de naftalina.

O velhinho pegou do papel, olhou como não acreditasse, mil vezes já vim aqui, a senhora da outra vez falou a mesma coisa,  falou quase inaudível, esperançoso,O que o senhor disse? a mulher de óculos tirou os óculos para olhar o velhinho pela primeira vez, nada não!, ele completou receoso,e dobrou o papel na mesma dobra que de tanto dobrar se estava se rasgando e  o colocou com cuidado no bolso.

Senhor Marcolino, não é minha culpa, sim!, a mulher fez questão de falar alto, continuou, faço parte de uma grande máquina, uma grande engrenagem sou apenas uma pequena peça já um pouco enferrujada. O velhinho não levantou os olhos. Ela a olhou com desdém, próximo!, Gritou por cima para que ele o velhinho banguela desse  a vez o mais rápido possível a outro, a fila anda, e outro velho aproximou-se. Os dois velhos  cruzaram-se de passagem um não teve coragem de olhar nos olhos do outro, a derrota, a mulher de óculos pegou o documento do outro velho, fez as mesmas perguntas, carimbou, pediu os mesmos documentos, ouve-se até um ranger de máquina enferrujada, ela tossiu, uma tosse seca que ecoou pelo salão, o velhinho banguela ainda olhou para trás, na esperança de ser chamado, mas só o silêncio, o silêncio ruidoso das máquinas e do metal frio.

Na calçada viu a fila dobrando a esquina e camelôs aproveitavam para vender água, biscoitos e outras guloseimas. Na longa fila, velhos e jovens com alguma deformidade, já não serviam ao sistema seriam encostados.  Trabalhei a vida toda na mesma firma e quando quebraram, descobri que eles não tinham recolhido o tributo. Muito azar eu dei! Ele ouviu isso de um homem sentado numa cadeira de rodas, ao passar.   Falava com um jovem negro, que tinha um toco no lugar das pernas. Viera rastejando até ali. Vou fazer perícia e se Deus quiser eles me aposentam, disse.

Aposentar é um verdadeiro jogo, pensou. Um jogo de xadrez que aprendeu jogar quando era menino. Onde o pião é sempre sacrificado, em defesa do rei ou da rainha encastelado em suas torres. Os bispos andam nas diagonais com suas batinas.  Vidas retas. Come somente nas diagonais e em quaisquer direções por isso deve-se ter o maior cuidado com eles. Já o cavalo salta em forma de ele. O peão coitado, anda uma casa por vez. São sempre oferecidos em trocas.

Na longa calçada ouvia  somente o toc toc da sua bengala. A barriga recomeçou a roncar. Senhor Marcolino, não pode ficar muito tempo de jejum, dissera o médico do SUS. Um jovem médico formado para fazer o  gosto e prazer da família. Tratava os outros de qualquer maneira. Buscava o status da profissão. Agora trabalhava num hospital de periferia. O senhor deve comer no mínimo três vezes ao dia, ele dissera ao velhinho. Agora, segundo os exames, o senhor é diabético e tem pressão alta. Só faltava essa! Pensou o velhinho.
Estou encostado há um ano e luto esse tempo todo para que eles me aposentem. O medico olhou os exames em silêncio. Aquele assunto não lhe dizia respeito.  O senhor agora só precisa se alimentar melhor e de repouso. E tudo se resolverá, tenho certeza!  O velhinho levantou-se, e saiu andando lentamente. Doentes por todos os cantos. Alguns até estirados pelos corredores.

 Alimentar três vezes! E repouso! É o meu desejo. Mas como fazer isso com o salário de fome que ganho? Se não cato papelão na rua como fazer? 

 Subiu a rua transversal.  Árvores frondosas dividiam a pista. Carros trafegavam velozes e furiosos. Parou na esquina. Inspirou longamente. Encostou-se num muro  protegido por cercas elétrica. Olhou através do portão de ferro fundido, coisa boa. Admirou a arte. Um rosto de um anjo com uma espada na mão. Bela construção. Do fundo saiu um pastor alemão  e veio rosnando em sua direção. Tinha pelos brilhosos e bons dentes. Ela não tinha. O pastor latiu. Abriu a bocarra mostrando os caninos e a língua rosada. Bem tratado, é o melhor amigo do homem!
O portão elétrico começou a se abrir. O segurança  sinalizou para o patrão e ele pisou nos freios e as lanternas acenderam. Vermelhas. Falou alguma coisa olhando para ele. Mediu-o de longe.  Um velho inofensivo. O carro preto passou, acelerando. O portão fechou e ele ainda deu tempo de vê uma fonte caindo aos pés de uma estátua. O jardim era florido.  Tomou fôlego e foi subindo a rua comprida, cheia de árvores e casarões frios. As plantas deixavam as paredes cheias de musgos. De fora, só se via a ponta dos telhados dos casarões.  A primeira vez que passou por ali.  Fez a escolha. Polvilho ou passagem. Arrependeu-se. Sentia uma fincada de lado. Colocou a mão, devia ser a maldita hérnia. O doutor nem me olhou! Muito menos me tocou! Como saber o que eu tenho? Uns moleques sorriram quando viram ele falando sozinho.

Durante o percurso viu a transformação da paisagem. As ruas antes largas e asfaltadas com excesso, agora curvavam e estreitavam-se como minhocas, até não terem o saída. Esgotos a céu aberto, barracos de madeiras, fios entrelaçados, postes, cachorros vira latas, latas de lixo revirados, pipas no céu azul, choro de criança, gritos, estrondo, alaridos, capim gorduras, muros nus, fumaça, tijolos a vista, pedra, pau, cocô, urubus, córregos sujos, cheiro de podre, becos lúgubres.

Empurrou a porta do barraco. O vira lata “pudim”, abanou-lhe o rabo. Sai sai, deixa eu entrar, alisou com carinho o focinho do bicho, os olhinhos pretinhos, seu sapeca! Seu sapeca! Fazia uma voz estridente e de criança. O cão deu um pique lá fora, girou em volta de um bambuzal e voltou correndo para ele. Seu Sapeca! Seu sapeca!
Requentou o café preto  e tomou um gole pausado, esticou o olhar pela janela, bem longe, o mundo, o mar e um barco indo contra o horizonte devagar. A lua brilhava um prata metálico. Tirou uma lata onde guardava as moedas. Colocou na mesinha de cabeceira. Pegou uma pasta enrolada e abriu sobre a mesa. Toma outro gole de café. O bucho parou de roncar He! He! Pegou o documento que precisa e o beijou. Agora eles... Sim e sim... Não vão ter desculpas! Bastardos! Pegou restos de comida  de uma panela e chamou pudim. Ele veio abanando a cauda e enfiando-se por entre suas pernas. Come com sofreguidão. Ele pega os documentos junta com as moedas e coloca dentro de um saco plástico. Dá um nó cego. Olha pela janela. Fica olhando até dizer chega. Deita no estrado. Demora dormir. Esta noite sabe que vai ser comprida. Sirenes tocam: de policia, ambulância, bombeiros, latidos, galos, tiros, tiros, mais tiros, grilos, grilos...A noite se  adensa.

Acordou clareando o dia. Ou o dia encontrou-o desperto. Requentou o café e dá um bons  goles. Lavou o rosto na bica. Defecou. Não gostou nada das cores de suas fezes. Tinha duas raias de sangue. Todas empoladas, parecendo de cabrito. Puxou a descarga. Vou falar com o doutor. Ainda as vê saindo pela fenda da parede e ganhando as grotas e chegando a algum lugar lá para baixo. Que tudo se transforme em merda!
Soltou pudim. Saiu e encostou a porta. Pudim o seguiu saltitante  até o inicio do calçamento onde fica o ponto de ônibus. Dali ele gritou para voltar. O bicho o atendeu e ficou bem num alto no meio do capinzal olhando de orelha em pé. O onibus encostou cheio. Todos com cara de sono, noites mal dormidas. Cumprimentaram-se como se fossem da família. A negra gorda e seu filho de colo. Todo mundo já cansou de saber o que ela fazia. Deixava toda manhã o menino na creche e ia trabalhar numa casa de família, tomar conta dos filhos dos outros no centro. Do dela o mundo tomava. Gente Chic ela sempre dizia. O rapaz de boné era padeiro. A moreninha peituda fazia ponto na praça da estação.  E o senhor seu Marcolino, já conseguiu a aposentadoria? Ele olhou devagar primeiro para o menino, conferiu no bolso o documento, Que nada!, Pediram mais um documento. Diz que é o último, vamos ver! Ela juntou as mãos em prece, Tomara seu Marcolino Tomara! Só a gente sabe o quanto que o senhor trabalhou e ainda trabalha nos seus biscates! Deus é grande! Deus é grande!

O ônibus desceu a encosta. Ainda estava escuro. Passaram postes, casas, casebres, casinhas, bangalôs, comércios abrindo as portas, biroscas, restaurantes, pontos cheios, gente voltando, mais postes, pontes, morros, luzes e luzes.

No asfalto a pista dupla. O movimento aumentou. Carretas, carros pequenos ônibus lotados, parada, saída entra gente sai gente de todas as cores e cheiros ponto final. Desceram. Tocou no bolso para confirmar o documento e as moedas.
O senhor quer uma Xerox, autenticar e reconhecer firma? Perguntou o garoto na papelaria. Sim! Ssim! Quanto é, por favor? O garoto fez a conta de cabeça. São sete reais e setenta e cinco centavos.

Olhou no saco plástico. A conta do bolso. Mais um dia com fome, pensou. Pagou o garoto e pediu para colocar tudo num envelope. Viera subindo a rua até o escritório da mulher de óculos. Chegou bufando. Ladeira e tanto. Pelo menos não preciso mais pegar a fila lá fora pensou. Já sou veterano de guerra, sorriu.Tirou a senha. 75. Que coincidência! Meus anos, sorriu. Sentou-se no banco. Falou para outro velho sorrindo. Pelo menos aqui é na sombra. Ele estava de bom humor hoje.O outro confirmou com a cabeça. Os velhos ou falam pelos cotovelos ou são silenciosos. Sons de teclados, portas abrindo e fechando, espirro, tosses, cadeiras arrastadas. Balcão comprido, liso, pernas, pés, roupas, seios, pescoços, orelhas, mãos, cabelos carecas, óculos, teto, fios, ventiladores, ar condicionados, tomadas, lâmpadas, descargas...
                   75 O velhinho viu no monitor 75.

Marcolino não se mexeu. Alguém do seu lado o cutucou. Não é o senhor?   Era a professora gorda, que já havia contado a vida dela de frente e pra trás e de trás pra frente. O senhor mesmo! Vai anda se não perde a vez. O velhinho levantou-se com o susto. Sentiu-se um pouco tonto e se segurou  ao balcão para não cair. Quer ajuda disse a professora! Não devemos nos levantar assim de supetão. O velhinho foi devagar, arrastando os chinelos carcomidos  com a senha na mão. Entregou a mulher de óculos. Ela o Abriu sobre a mesa. Confirmou assinaturas. Pegou a pasta e olhou documentos por documentos. Agora sim seu Marcolino, entregou ao velhinho um papel com um número de protocolo, agora é só esperar, que dentro de três meses, o senhor receberá uma correspondência confirmando.

O velhinho ficou um pouco a ver navios, parado no balcão. A companhia chama o 76. Ele levantou-se quer agradecer, mas a voz não sai, e sai calado, até a casa é muito chão, pensou, devo guardar toda a energia.

Chegou quando escurecia. Fez um novo café. Tomou em goles largos, gostosos. Pudim roçava suas pernas. Saiu e sentou-se no banco, com a vista para o mar. Era como uma paisagem morta. Longe, tão longe que não ouvia a gaivota, nem as ondas, nem o cheiro. Era uma cena de filme mudo. Ficou assim a noite inteira. Parado, olhando o espaço entre o mar e o céu, o céu e o mar, algumas estrelas, as luzes da cidade, pontos brilhantes, céu no chão na imensa noite profunda.

                                                                  ***

Três longos meses e um papel timbrado, quase em branco, passou de mão em mão nas repartições, sendo carimbado, autenticado, aprovado e agora andava numa bolsa sacolejando, subia o morro, e foi ao seu destino.
 O carteiro gritou: Sr Marcolino de Andrade Silva! 
 Nada. ninguém responde. Assovia. Repete mais alto :Senhor Marcolino de Andrade Silva! Esperou. Escutou um rosnado. Fraco,. Curioso empurrei a porta com o pé.

Seu Marcolino estava deitado no estrado, mãos sobre o peito, rígido, inerte.  Será?  Depois de tanta espera? Toda vez que eu passava ele perguntava: Alguma coisa para mim?  Liga para o 190. Do outro lado da linha? O que aconteceu?

Eu vim entregar uma correspondência  no número 173... Sabe... Acho que tudo que eu andei pensando foi como aconteceu...e o velho, senhor Marcolino ... Sabe? O velhinho catador de papelão? Acho que o velho está...  à caminho do éden.


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