Domingo
Antes mesmo de o galo descer do poleiro, eu já tinha lavado
o rosto, escovado os dentes, preparado o embornal: Um caderno de cinqüenta folhas, aproveitado do
ano passado, agora com trinta, um toco
de lápis sem ponta, um apontador, uma borracha de duas cores, uma para apagar
os erros de grafite a outra para apagar tinta, uma tabuada, abecedário, duas bolas
de gude, pião com a corda enrolada e um estilingue.
A escola funcionava na casa de Francisca temporariamente, a
da prefeitura tinha caído, parece que usaram materiais impróprios, enfim, quem
dava aula era sua mãe, Dona Elvira, a filha tinha pegado barriga de um
viajante, vendedor de fumo, não valia nada a bisca, de modo que não assumiu,
caiu no mundo o safado, que se fosse filha minha, eu pegava o traste, mas enfim
a barriga estava grande, em estado interessante, pelos dias, de modo que, a
velha assumiu a cátedra e era muita rígida.
No primeiro dia,
quando sentamos,... hahahaha! Pausa, Quando
sentamos no banco que ficava encostado a parede... Todo o reboco, mas todo o reboco mesmo veio
abaixo. Ficaram a mostra os tijolos nus.
Gargalhada. Menino, no dia... É mesmo que eu esteja vendo agora, ela ficou pálida, mesmo sendo
daquelas italianas vermelhas, igualzinha galo índio... hahahaha! Deu uns
gritos, perfilou todos nós em fila, uns
dez alunos mais ou menos, e encheu a gente de bolos de palmatória.
Para vocês entenderem... Maria grita a empregada... Traz-me aí a
palmatória. Tá encima do guarda roupa. Vejam! É de madeira de lei, na ponta
arredondada, para pegar toda a extensão da mão. Todos pegam. E tinha família
que, além disso, colocavam prego para o castigo ser maior.
E essa nova prática de educação em que consistia uma
verdadeira tortura como ajoelhar em grãos de milho, régua na cabeça, bolos de
palmatória e beliscão, segundo nossos pais, estavam surtindo o efeito desejado,
educar nossas feras, diziam.
E assim com essa introdução a velha ganhou nossa antipatia,
quando ela disse que a partir daquele dia ia domar-nos, vou torná-los animais
domésticos ditos gritando brandindo a palmatória, às vezes batendo
na mesa de jacarandá, olhos, faíscas e raios. Uma verdadeira bruxa.
Vale dizer que desde tenra idade, nós éramos criados livres,
os pais ocupados com a vida, cidade pequena, nada a fazer eu pensava que o
estudo não tinha lá sua importância, queria logo crescer, montar um negócio,
ganhar dinheiro, eu achava que a gente devia aprender só o necessário, na minha
cabeça era plantar colher vender e isso não carecia de escola, era só prestar
atenção a natureza, que os pais faziam a maior besteira da vida colocar a gente
pra sofrer preso em quatro paredes a aprender símbolos e letras desnecessários
no futuro. Pois bem!
Na volta para casa fazíamos roda de pião, bola de gude,
caçava passarinhos no mato, e principalmente aula de educação sexual. Sim! Nosso maior interesse era isso. A sala
era o sítio dos paus ferros, que entrávamos saltando cercas e víamos os
cavalos, os cabritos, galos, perus, gatos, todos os bichos nos prazeres
mundanos.
Depois íamos tomar banho de rio, todos pelados, sem pudor, éramos
crianças, quase índios em descobrir os recantos da região.
Ao chegar a casa Mainha que não era nenhuma boba, conhecia os
filhos que tinha, passava a unha levemente na nossa pele, se ficasse russa, era
sinal que tínhamos passado no rio e ela pegava a gente pela orelha, assim ó,
segurava a própria orelha sorrindo, vais tomar doze bolos para não mais
fazer isso! Pensa que eram só doze? Neca de Capibaribe! Eram vinte e
quatro contados lentamente um a um! Aprendi a partir daí a passar óleo de
cozinha na pele quando chegava.
Ah! Lembrei de uma situação. No dias das mães a professora
pediu que todos fizessem uma frase, numa cartolina azul. Quando chegou minha
vez toda a família reunida, esperando algo típico de um escritor vejam a frase:
Mãe é mãe, por isso eu amo ela!
Todos riram. Só Dona Neuza, Mainha, esboçou uma cara de
choro emocionada que estava. E ficou aplaudindo de pé. Mãe é mãe, né?
A partir daí ganhei a alcunha de “Moela”. Não gostei. Devido a isso estourei o
supercílio de Nonato, aquele que é advogado, sim, agora é promotor lá em... Falta-me
a memória...quebrei um dente, de Toninho, esse é comerciante, tem um mercado
grandeee! La pras bandas de Pernambuco,
gente boa, ficou rico... Também arranhei
as costas de Afrânio, kkkkk, esse é professor lá na capital, funcionário
público, ganha uma merda de salário. Rarararaá! Até eu
acostumar fiz bastantes arruaças, por que eu era um bom lutador, sabe? Não
perdia nenhum filme de Santos o mascarado ou de cowboy, nem de Bruce Lee.
Devido a isso, de querer ser um herói, quebrei o braço, esse
aqui, o esquerdo, tentando pular de galho em galho como fazia Tarzan, o homem
macaco.
Cicatrizes tenho em tudo que é lugar, aqui no queixo,
levanta o queixo, (um salto ornamental que dera errado), aqui ó, no supercílio
(brincando de guerra com bodoque), aqui no lado esquerdo da barriga, levanta a
camisa, (apêndice), nos joelhos, tudo estropiado, (atropelado pelo jegue), no
dedo indicador, ó, (uma pedra de estilingue), ali no dedão do pé esquerdo
(imprensado num portão de ferro).
Mas no fim num sabe, Eu acho até que eu apanhei foi pouco.
Gargalhada. Tosse. Tosse.
- Conta
mais, vai!
-Crianças! Vão
brincar! Deixem seu avô dormir agora!

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