quinta-feira, 21 de julho de 2016

Domingo




                                                             Domingo

Antes mesmo de o galo descer do poleiro, eu já tinha lavado o rosto, escovado os dentes, preparado o embornal:  Um caderno de cinqüenta folhas, aproveitado do ano passado, agora com trinta,  um toco de lápis sem ponta, um apontador, uma borracha de duas cores, uma para apagar os erros de grafite a outra para apagar tinta, uma tabuada, abecedário, duas bolas de gude, pião com a corda enrolada e um estilingue.

A escola funcionava na casa de Francisca temporariamente, a da prefeitura tinha caído, parece que usaram materiais impróprios, enfim, quem dava aula era sua mãe, Dona Elvira, a filha tinha pegado barriga de um viajante, vendedor de fumo, não valia nada a bisca, de modo que não assumiu, caiu no mundo o safado, que se fosse filha minha, eu pegava o traste, mas enfim a barriga estava grande, em estado interessante, pelos dias, de modo que, a velha assumiu a cátedra e era muita rígida.

 No primeiro dia, quando sentamos,... hahahaha! Pausa,  Quando sentamos no banco que ficava encostado a parede...  Todo o reboco, mas todo o reboco mesmo veio abaixo.  Ficaram a mostra os tijolos nus. Gargalhada.  Menino, no dia...  É mesmo que eu esteja  vendo agora, ela ficou pálida, mesmo sendo daquelas italianas vermelhas, igualzinha galo índio... hahahaha! Deu uns gritos, perfilou todos nós em fila,  uns dez alunos mais ou menos, e encheu a gente de bolos de palmatória.

Para vocês entenderem...  Maria grita a empregada... Traz-me aí a palmatória. Tá encima do guarda roupa. Vejam! É de madeira de lei, na ponta arredondada, para pegar toda a extensão da mão. Todos pegam. E tinha família que, além disso, colocavam prego para o castigo ser maior.
E essa nova prática de educação em que consistia uma verdadeira tortura como ajoelhar em grãos de milho, régua na cabeça, bolos de palmatória e beliscão, segundo nossos pais, estavam surtindo o efeito desejado, educar nossas feras, diziam.

E assim com essa introdução a velha ganhou nossa antipatia, quando ela disse que a partir daquele dia ia domar-nos, vou torná-los animais domésticos ditos gritando brandindo a palmatória, às vezes batendo na mesa de jacarandá, olhos, faíscas e raios. Uma verdadeira bruxa.

Vale dizer que desde tenra idade, nós éramos criados livres, os pais ocupados com a vida, cidade pequena, nada a fazer eu pensava que o estudo não tinha lá sua importância, queria logo crescer, montar um negócio, ganhar dinheiro, eu achava que a gente devia aprender só o necessário, na minha cabeça era plantar colher vender e isso não carecia de escola, era só prestar atenção a natureza, que os pais faziam a maior besteira da vida colocar a gente pra sofrer preso em quatro paredes a aprender símbolos e letras desnecessários no futuro. Pois bem!

Na volta para casa fazíamos roda de pião, bola de gude, caçava passarinhos no mato, e principalmente aula de educação sexual.  Sim! Nosso maior interesse era isso. A sala era o sítio dos paus ferros, que entrávamos saltando cercas e víamos os cavalos, os cabritos, galos, perus, gatos, todos os bichos nos prazeres mundanos.

Depois íamos tomar banho de rio, todos pelados, sem pudor, éramos crianças, quase índios em descobrir os recantos da região.

Ao chegar a casa Mainha que não era nenhuma boba, conhecia os filhos que tinha, passava a unha levemente na nossa pele, se ficasse russa, era sinal que tínhamos passado no rio e ela pegava a gente pela orelha, assim ó, segurava a própria orelha sorrindo, vais tomar doze bolos para não mais fazer isso! Pensa que eram só doze? Neca de Capibaribe! Eram vinte e quatro contados lentamente um a um! Aprendi a partir daí a passar óleo de cozinha na pele quando chegava.

Ah! Lembrei de uma situação. No dias das mães a professora pediu que todos fizessem uma frase, numa cartolina azul. Quando chegou minha vez toda a família reunida, esperando algo típico de um escritor vejam a frase:

Mãe é mãe, por isso eu amo ela!

Todos riram. Só Dona Neuza, Mainha, esboçou uma cara de choro emocionada que estava. E ficou aplaudindo de pé. Mãe é mãe, né?

A partir daí ganhei a alcunha de “Moela”.  Não gostei. Devido a isso estourei o supercílio de Nonato, aquele que é advogado, sim, agora é promotor lá em... Falta-me a memória...quebrei um dente, de Toninho, esse é comerciante, tem um mercado grandeee!  La pras bandas de Pernambuco, gente boa,  ficou rico... Também arranhei as costas de Afrânio, kkkkk, esse é professor lá na capital, funcionário público, ganha uma merda de salário. Rarararaá!   Até eu acostumar fiz bastantes arruaças, por que eu era um bom lutador, sabe? Não perdia nenhum filme de Santos o mascarado ou de cowboy, nem de Bruce Lee.

Devido a isso, de querer ser um herói, quebrei o braço, esse aqui, o esquerdo, tentando pular de galho em galho como fazia Tarzan, o homem macaco.

 Cicatrizes  tenho em tudo que é lugar, aqui no queixo, levanta o queixo, (um salto ornamental que dera errado), aqui ó, no supercílio (brincando de guerra com bodoque), aqui no lado esquerdo da barriga, levanta a camisa, (apêndice), nos joelhos, tudo estropiado, (atropelado pelo jegue), no dedo indicador, ó, (uma pedra de estilingue), ali no dedão do pé esquerdo (imprensado num portão de ferro).
 
Mas no fim num sabe, Eu acho até que eu apanhei foi pouco. Gargalhada. Tosse. Tosse.
         

          - Conta mais, vai!
          -Crianças! Vão brincar! Deixem seu avô dormir agora!



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